sábado, 29 de janeiro de 2011

MEMÓRIAS DO FUTEBOL DE SANTA ROSA...

Esta é uma história enviada por J. J. Araujo, mas que foi escrita por Paulo Heitor Fernandes, o PHF, como é conhecido, sobre o nosso futebol, na decada 50/60. Veremos várias. Esta é a primeira:

QUEM NÃO É DO PALADINO É CONTRA O PALADINO

Texto de J.J. Araújo e foto de Ruy Araujo Graffunder


Houve um cidadão em Santa Rosa, cujo nome omitirei, mas, vamos tratá-lo por Zeca, que em determinada oportunidade inventou o refrão QUEM NÃO É DO PALADINO É CONTRA O PALADINO.

A origem teria sido num jogo entre Oriental de Três de Maio e o seu clube na cidade vizinha.

Conta-se que, segundo o seu entender, nesse amistoso o juiz estaria atuando, tendenciosamente, prejudicando o seu time. Como na época os campos não eram fechados, ficando o publico separado dos atletas apenas pelos corrimões, adentrou o gramado e dirigiu-se ao juiz, ostensivamente, dando o brado: quem não é do Paladino é contra o Paladino. O juiz, logicamente, providenciou para que fosse retirado de campo. Entretanto o refrão ecoou pela cidade, consagrando-se junto aos torcedores.


César, também.

PHF

Caieira estava jogando conversa fora com o Waldemar Santana, Joel Bragança, Paulo Madeira, Chassis Torto e outros habituês do Café Central, quando Silas o carteiro, com um telegrama: - Quem é Arthur da Silva Ribas?- Sou eu, seu criado.- Estive em sua casa e Da. Elvira disse que o encontraria por aqui...- E cá estou, para le servir.- Tenho um telegrama para o senhor.Caieira tomou o telegrama e apelou:

- Quem é quem caneta, aí? Passa recibo para o moço.Joel, prontamente, assinou e devolveu o recibo para o carteiro.Caieira, sem ler, botou o telegrama no bolso da camisa e dirigindo-se ao carteiro:

- Obrigado, moço.

À noite, no programa de esportes, da ZYZ-2, Caieira, entrevistado por Paulo Araújo, explica:- Hoje, à tarde, recenzinha, recebi um telegrama de Plínio.- Ué! O Plínio não está concentrado?- Não. Foi ver a mamãe dele que está adoentada, lá por Catuípe... Não sei se é grave, mas ele telegrafou para dizer que está medindo todos os esforços para vir jogar...- O Sr. está contando com ele?- Claro, por que não? Ele é titular, chegará e vai jogar.- Mas o Sr. não teme que ele possa estar abalado psicologicamente e, então, não renderá com qualidade?- Bom, eu escalo... Se jogar bem ou mal é com ele... Eu lavo as mãos como César.- É, César também lavava as mãos - concluiu, com sapiência e espírito, Paulo Araújo.




Centro avante em pele de gato

PHF

Dia 15 de novembro, de um ano em que a memória não me socorre, estava, com minha mulher, em Santana do Livramento, almoçando, no restaurante do Hotel Brasil-Uruguai, quando chegam Perigoso, Mineiro, Caieira... E mais alguns.O Paladino, no dia anterior, um domingo, tinha disputado uma pugna futebolística (como se dizia, então) em Quaraí, jogo duríssimo, pelo estadual de amadores. Em Livramento, iriam assistir, à tarde, uma disputa pela 2ª. Divisão (hoje, Série B) do Estadual, entre o Grêmio Santanense (que veste vermelho) e um Clube de Santa Cruz do Sul, parece-me que o Avenida.Caieira estava interessado por um centro-avante (Vilmar) ainda não profissionalizado, que subira das bases e iria estrear no time da capital do fumo.Incorporei-me à delegação de paladinenses para ver o atleta e, em segundo plano, o jogo.O centro-avante prometia, era bom mesmo. Despontava no timinho de Santa Cruz. Caieira, após o jogo, foi falar com ele, acertando, de logo, sua transferência para Santa Rosa, ajustando inclusive os pagamentos de “luvas” (amadorismo marrom, como diriam as más línguas do Juventus e do Aliança).Na volta do jogo, deparo-me com Leonor encantada ante uma vitrina, cujos manequins exibiam peles e uma “maravilhosa”, de gato montês suíço, legítima, mercadoria que, hoje, só se vê em Montevideo.Leonor, à minha presença, atreveu-se, entrou e indagou o preço. Como não era ela que iria pagar, achou uma barbada, “teria que comprar de olhos fechados” ( e guaiaca aberta). Ponderei que precisava tempo para pensar. No dia seguinte, pela manhã, daria a resposta.No café da manhã, aparece-me Caieira, com um poncho de bichará recém comprado no El Bagual e expôs-me a situação:- Doutor, tamos mal. O centro-avante só irá com nóis se receber as luvas, agora, no sufragrante... E vou le confessar : não tenho a grana toda... Não se assuste, mas falta muito...- Cuê, pucha! Caieira... Isso é quase o preço do passe de Ivo Diogo, que agora foi para o Grêmio.- Não podemo perder, doutor. Me dá um cheque e lá, em Santa Rosa, nóis acerta com o pessoal, cada um dá um pouco, e ta feito o carreto.

Não titubeei, quero dizer, titubeei, mas cedi, passei o cheque, justo quando Leonor chegava à mesa.

- Bom dia. Negócios a essa hora da manhã?Caieira , solicitamente, esclareceu:

- Compramos um centro-avante, dona... Não fosse o doutor, aqui, teríamos perdido o craque... Esse é craque, le asseguro!Leonor, até hoje, está usando as raposas e lontras de sempre, peles de muitos invernos. Gato montês suíço, nem pensar. Vilmar jogou onze meses no Paladino e, depois, foi para o Criciuma, S. Catarina... E nunca mais ouvi falar dele, tampouco de meu dinheiro. Como disse meu cunhado, Charles, também centro-avante do Paladino, de antanho, “um centro-avante, vale mais que um casacão. Ora se vale! Relevando a auto-afirmação, tem razão (embora Leonor deva discordar).


SEM SOTAQUE.

PHF

Caieira, ao telefone:- Alô, é o Dr. Monte?- Alô, aqui é Monte Alvar; fala Caieira.- Dr., ta tudo bem, o pessoal ta concentrado, tudo bem mesmo.- Sim e aí?- Mas tem um poblema, doutor...- Problema? Que problema? Então, não está tudo bem.- Coisa pouca, doutor; a teve que o Waldemar Zenni trouxe para a concentração não está bem.- É? Qual é o problema?- O aparelho tem semblante, mas não tem sotaque.Waldemar Zenni, depois, explicou que os atletas não “eram mansos” de comando do volume de som.





SEM NÓIS, NÃO!


PHF

O Internacional , de Porto Alegre, à época cam
peão estadual, foi cumprir uma apresentação amistosa, em Santa Rosa, em comemoração ao aniversário do Paladino.Era eu, então, cônsul do S. C. Internacional, no município. Empenhei-me em ajustar condições razoáveis para que o Paladino pudesse promover o amistoso e lucrar alguns. Antes do jogo, houve um ligeiro tumulto frente ao Estádio (estudantes, que reivindicavam a meia entrada, impediam os torcedores de entrarem no estádio), que o Dr. juiz de direito e uns policiais resolveram, garantindo o direito dos estudantes.O Dr. Gildo Russowski, que chefiava a delegação do Inter, apelou-me para que a partida não atrasasse, pois o avião só poderia decolar, de retorno a P. Alegre, até às 18;25 horas.Fui, com Zeferino Soares (“quem não é do Paladino, é contra o Paladino”) ao vestiário (ou vestuário, como dizia Caieira) e instei o treinador a botar o time em campo, onde já batia bola o Inter.Caieira , tranquilamente, respondeu-me:- Calma, doutor, sem nóis eles não joga.Depois dos primeiros 45 minutos, Caieira, no vestiário, reclamou:- Vocês não tão chutando a gol; sem chutar, ninguém vasa!- Ah, seu Arthur, o Sr. esqueceu que Gainete é goleiro menos vazado do Brasil?- Não cheje bobo! É só chegar de cima e chutar forte, rasteiro, no canto, vamos ver se ele pega!!??


PELAS PRATIBANDAS

phf

O Dr. Monte Alvar - legenda do Paladino F. C. - decidiu, por indicação de Vado, um atacante do Clube, contratar Arthur da Silva Ribas, popular Caieira, ex-jogador do Nacional de Cruz Alta, para treinar o “colorado santa-rosense”.Caieira, que logo se popularizou em Santa Rosa, exercia liderança eficiente ante os “boleiros” do Clube e granjeou logo a simpatia da torcida. Na sua estréia, fez um “h”:- Não tenho nada a esconder, os amigos da imprensa estão convidados para assistir a minha “preleção, antes da partida”.Lá foram Paulo Araújo, Pedro Comaru, Geová Müller, Francisco Delmar... E eu.

Caieira, sem cerimônia, distribuiu as camisetas e falou, alto e bom som:- É aquilo que já eu expliquei nos treinos: vamos sentar os baques e arrecuar os alfes; fechado para não levar – quem abre, toma. Quando tivermos a bola, vamos atacar pelas platibandas e cruzar para o mosquedo - no entrevero é que morre gente. Em úrtima análise: cada um agarrra seu homem e bola pra frente. Seja o que Deus quiser!- Seu Arthur - indagou Mido, que também é cruz-altense - se chover, seu Arthur, é o mesmo jogo:- Aí, vamos fazer como em Cruz Alta.Comaru, atento, esclarecendo: - Caieira, para bem informar aos ouvintes da rádio: como o Sr. fazia em Cruz Alta, quando chovia?- Nada, deixava chover e jogava o mesmo futebol... Boa sorte pra todos, moçada!



PARAGUAIO

J.J. Araujo

Sendo Alberto Samaniego o centro avante do Paladino e como se disputassem partidas históricas e ferrenhas contra o Grêmio de Santo Ângelo, sucessivamente, Léo Samaniego, irmão do Paraguaio e alguém conhecido pelo apelido de Chaquenho, foram importados de Incarnacion. Um, centro-médio clássico e brigador, o outro, um meia-direita dos bons. Como o Paladino ficasse mais forte, os “Paraguaios” quiseram homenagear seu presidente Waldemar Zenni, publicando no jornal a Serra, um poema como se tivesse sido feito por eles. Descobriu-se, muito depois, não sei se até o presidente o sabe que fora, nada mais, nada menos, do que a letra do hino do Cerro Portenho: Arriba la muchachada y la hinchada del Gran Ciclón Que defiendo los colores Azul y Grana por Tradición Irala el Gran Presidente que con su ejemplo asi enseño.Cerro, Cerro, Cerro, Siempre, Cerro Triunfará Cerro, Cerro, Cerro, Siempre, Cerro Tu Papá.Cerro Porteño, el Club del Pueblo. Cerro Querido para ti Gloria Inmortal Por tu entereza y tu grandeza, eres el alma, el alma misma del Guara.

Somos Felices, cantando a Coro Cerro Querido para ti mi Corazón Por eso siempre defenderemos El bello emblema azul y grana del Ciclón.

Paraguaio ficou por aqui. Léo, depois de uma passagem pelo Gremio de Santo Ângelo jogou no Cruzeiro de Porto Alegre. Chaquenho atuou pelo São José,também da capital.


NAPOLEÃO RODRIGUESDA SILVA

J.J. Araujo

Logo depois da fundação do PALADINO, veio trabalhar em Santa Rosa, como telegrafista dos CORREIOS E TELEGRAFOS, Napoleão Rodrigues da Silva .Um jovem escriba soube da chegada do craque e que sua historia seria no domingo seguinte. Teve curiosidade de saber de quem se tratava, mas não teve êxito em sua procura. Na escalação do time, comentando a partida escreveu o nome do lateral direito, como sendo TELEGRAFISTA. Veio a saber, depois que seu nome era NAPOLEÃO e foi o dono de sua posição, praticamente até quando quis.


NERI RODRIGUES DA SILVA

J.J. Araujo

Napoleão, viera. Mas, lá na cidade de Tupanciretã,(?)ficara seu irmão NERI. Quando chegou o ano de NERI prestar o serviço militar, foi trazido para cá, a fim de servir no Regimento local e, aliando o útil ao agradável, passou a treinar e, posteriormente, jogar no PALADINO com seu irmão. Muito do sucesso do alvi-rubro então,deveu-se à performance dos irmãos SILVA.


ALBERTO SAMANIEGO (Paraguaio)

Carlos Alberto Kolecza(*)


Apareceu em Santa Rosa em fins da década de 40, foragido.


Havia se envolvido numa encrenca política, cabeluda. Um golpe de estado sob as ordens de ALFREDO STROSSNER, amigo de infância na cidade de Encarnacion e seu Tenente na Guerra do Chaco (contra a Bolívia).


O golpe falhou.


Virou ídolo do Paladino, junto com Nolly Joner que o visitava, quando vinha a Santa Rosa. Casado com minha prima Iracema.


Nunca o vi jogar. Certa vez, entrou de brincadeira num treino nosso, no campo do antigo estádio e descadeirou seu marcadores, com dribles desconcertantes. Aí entendi sua fama. Virou pintor de casas, sempre ligado nas notícias do Paraguai.


Era um dos poucos donos de rádio, nas redondezas. Usando as ondas curtas na tarde sintonizava uma emissora de Incarnacion.


Quando Strossner tomou o poder em 1955, mandou chamá-lo e deu-lhe o posto de Primeiro Sargento.

Com a família (meu pai emprestou dinheiro para a viagem), se foi para lá, mas deu-se mal.A disciplina era rigorosa demais para quem já gostava de uns tragos a mais.Voltou para os pinceis e broxas, em Santa Rosa.Nos fins da tarde a casa se enchia de amigos para uma roda de tererê (mate frio) com adoçante, seguido de uma rodada de samba (cachaça com guaraná).Nas pescarias, no Pessegueiro, contava detalhes da sede que sofreram cercados pelos bolivianos, mais, filtrar a própria urina e foram capturados.Dele ficaram histórias folclóricas.Em dias de eleição (a venda das bebidas era proibida passou o déia escondido num nolicho próximo ao o quartel.Ao voltar para casa, ziguezagueando, foi parado pelo xerife delegado Wilde Pacheco, que passara o dia na caça em vão aos bebuns e voltava frustrado à Delegacia.Com o seu vozeirão o delegado intimou: onde é que tu bebeu? Resposta dele “te vira como eu me virei”. Surpreso Wilde voltou para o jipe dando risada.Sempre inventava algo imprevisível. Quando o rádio era a bateria saiu, de madrugada, pela rua para dar uma serenata. Carregava o aparelho no ombro; suava com o peso da bateria.De outra feita, no verão, comprou um caíque para navegarmos acima da “taipa” (a represa que desviava água para o matadouro do Ruzzarin). No terceiro dia o caíque sumiu. Não se chateou. Sua filosofia era aproveitar a vida no momento. Depois, era depois.Ficou famosa a expedição – SABIÁ, FLAVIO PITAS e outros que fizeram pelo rio Comandai, apreendendo redes e “paris” (as gaiolas que capturavam os peixes graúdos em pontos estratégicos do rio). Foi uma farra ecológica que durou dias.Foi técnico na fase inicial do Sepé, por pouco tempo. Com ele aprendi que o estádio Defensores der Chaco, em Assunção, deve o nome ao descampado onde os rapazes recrutados para a guerra – ele tinha 16 anos – recebiam os rudimentos de como montar e desarmar uma arma e como se comportar em combate.Quando pôde ia a cada três meses ao Paraguai sacar o minguado soldo de ex-combatente.De nossas conversas de pescaria guardo um grande arrependimento. Foi quando se ofereceu para me ensinar o guarani – a verdadeira língua dos paraguaios – e eu, burro e mal - educadamente, respondi que seria perda de tempo.Os últimos 20 anos de sua vida foram de sobriedade, desde o ultimato do Dr. Paulo Stefen, do Hospital de Caridade de Santa Rosa.Morreu, em São Gabriel, em 1993, pelos meus cálculos as 77 anos.


GRÊMIO ESPORTIVO SEPÉ TIARAJU - UM FENÔMENO SOCIAL.


Carlos Alberto Kolecza(*)

Não sei quem teve a idéia, onde, quando, tampouco quem propôs o nome. Terá sido na euforia da primeira e única vez que se ganhou do Botafogo, o jogo de sempre aos domingos, de manhã.Éramos o Guarani Futebol Clube, um time sem camisetas, poucas chuteiras, às vezes sem bola da gurizada, entrando na adolescência da cidade baixa. Mais precisamente, na rua Dr. Francisco Timm, para baixo.Com o esforço de alguns voluntários do outro lado do Pessegueirinho.Além do arqui-rival Botafogo havia o Operário time dos pedreiros de um pavilhão do Colégio Santa Rosa de Lima, que sumiu com o término da obras. Na cidade alta, o Palmeiras, jogava num terreno vazio na esquina oposta da Casa Lavarda.Em Cruzeiro, uns guris bons de bola, entre eles os irmãos Jarbas e Plínio Tonel, metiam medo de goleada na gente.Muitas cabeças pensavam em um novo time capaz de queimar o longo reinado de Paladino.O Quartel apareceu com o Duque de Caxias, efêmero.O Floresta, concebido entre montanhas de sacas de feijão e milho, da firma atacadista do mesmo nome – era o Renner – de Santa Rosa.Os irmãos maristas contribuíram com o Cariris, embrião do Aliança.Francisco José Berta – o seu Berta – sempre sorridente, entre pomadas e xaropes, bolava os lances que revolucionariam o pacato futebol santarosense.A anos luz do profissionalismo de Tamoio, Elite e Grêmio de Santo Ângelo, para não falar nos fortíssimos clubes de Cruz Alta.Esse era o panorama geral, mas, um novo clima estava brotando do chão naquela SANTA ROSA de transição da fase predominantemente rural para a urbana. A cidade não estava mais encaixotada entre o Pessegueirão e o Pessegueirinho, desde o início, as divisas entre o perímetro urbano e as colônias.Vontades e necessidades até então abafadas estavam irrompendo em todos os cantos.Só por isso se pode explicar que uma idéia de um grupo de garotos pés-rapados se transformasse em realidade.Sem querer, no balcão da secretaria da Federação Gaucha de Futebol, Aneron Correa de Oliveira o eterno presidente, recebeu em mãos o envelope com os Estatutos do Clube.Deu o acaso de estar de saída e dar com um rapaz chegando no balcão. Perguntou, recebeu o envelope que Alceu Medeiros enviara e dias depois telegrafou comunicando a filiação.Não havia bola no dia do treino.Por sugestão do Alberto Samaniego – o Paraguaio – se fazia plantão no bolicho do “seu Olmiro”, creio que nossa primeira sede, na descida da Rua Santo Ângelo e atacávamos o pessoal a caminho do almoço em casa. Era uma rifa engenhosa. O sujeito pagava o numero que tirava do copo. O premio: um litro de conhaque. Mais uns trocados aqui e ali e a bola estava garantida.Jogadores que aguardavam vaga em outros clubes, reforçavam os pontos fracos.

Alguém - quem terá sido? - deu a sugestão genial de se organizar bailes. Pronto. Os pais se associavam parta garantir um lugar decente para as filhas dançarem. Em pouco tempo tínhamos uma torcida feminina uniformizada. Algo nunca visto no Estádio Municipal.Mais que um time de calceteiros, pedreiros, biscateiros, bancários e estudantes, um clube de pobretões, o SEPÉ TIARAJU, foi um fenômeno social.De longe eu recebia as notícias que Alceu Medeiros, punha no papel.Caí para trás quando informou a compra do primeiro jogo de camisetas.Alceu era o cérebro que foi articulando pessoas, criando situações positivas, descobrindo atalhos salvadores. Em torno dele se agrupavam os benfeitores, se juntavam os jogadores e se dirigiam as adesões.O SEPÉ era um clube de varias famílias com o mesmo sobrenome – MEDEIROS.Gente sempre disposta a cooperar, cada ramo numa ponta da cidade. Talvez nem parentes fossem.Até hoje me bate uma tristeza de não estar junto quando o SEPÉ foi campeão.Me consolo relembrando as nossas peladas no Campo da Tuna, uma fatia plana de um potreiro que despencava para o Pesssegueirinho, próximo ao moinho e serraria dos Meinerz.A tuna protegia um angico e furava todas as bolas que se aproximassem.Matávamos a sede no poço do “seu Meneghini”. Seu filho Raul deu seus primeiros passos conosco. O Campo da Tuna era o nosso Estádio e nossa escola de vida como ela é, de irmandade e, sem distinção de cor da pele.Tomado de casas, hoje, ali nasceu o SEPÉ com o nome provisório de Guarani F. C.Primeiro, a tribo, depois o grande guerreiro. --------------------------------------------------------------------------------------

EM MEMORIA DE “ PINICILINA”


Carlos Alberto Kolecza(*)

Do jeito que o Jayme Araujo falou, abriu a porteira do túnel do tempo para o passado do futebol de Santa Rosa.

Embarco de carona, enquanto não fecha o sinal.

A geração de agora ironiza lembranças encharcadas de saudosismo, dos tempos do ariri pistola daqui a 30 ou 40 anos, quando chegar a sua vez, perceberão que guardam tesouros no baú da memória.

Só então descobrirão a alegria de poderem dizer “ eu vi isso ou aquilo” ou “eu estava lá”.Claro, algumas lembranças são de uso e gasto pessoal, intimas.Falo das outras que formam a base da memória coletiva que fazem parte de um projeto com mais gente na garupa.Devem ser compartilhadas de parte a parte, mais ou menos como os guris trocam figurinhas para completar seus álbuns. É até obrigação.Santa-rosenses da minha faixa podem não ter muito em comum para conversar, até alguém lembrar um jogador com apelido de injeção. (é uma vergonha, não sei o nome dele).Em segundos uma explosão de lances geniais de “Pinicilina”, com ou sem bola, revelará uma amizade íntima de que nunca desconfiaram antes.O mundo mágico do futebol se abre instantaneamente, à simples menção do nome de um jogador ou de um clube.Abacadabra. Ates de passar ao outro plano “Pinicilina” nos presenteou um futebol mais inteligente e bonito ainda vivo em nossas retinas. Não é só isso. Como em um filme, rodopia o carrossel das emoções que vivíamos as aventuras, as amizades, os sonhos. Tendo a Santa Rosa de então como cenário. O futebol fazia girar o carrossel e montados nele pintávamos a visão que tínhamos de nós mesmos e dos outros.O futebol nos “amansou”. Garotões tinhosos que éramos dentro e fora do campo. Nós e toda uma geração. Foi uma escola de vida que completava as lições de casa e da escola.Era o fecho de nossa identidade, a certeza de pertencimento a uma comunidade, a uma cidade, a uma sociedade. Independente de clubes, eramos e somos gratos a quem fazia o carrossel girar, mesmo sem nunca trocarmos uma palavra. O futebol nos igualava na tristeza e na alegria.Certo, aceito que foi assim porque era o jeito de as coisas acontecerem. Outra época, outro jeito, de pleno acordo.Só me pergunto o que aconteceu – melhor o que não aconteceu com a geração que veio depois, quando o futebol se refugiou nas canchas (quadras) de futsal.A época em que – presumo de longe – o futebol de campo esteve morto.Em certa passagem por Santa Rosa assuntei a duvida com o Liton Pilau, uma perda trágica para o encontro da cidade consigo mesma.

Ele se foi e até hoje tateio em busca da resposta.Só fico torcendo para que os garotões que nos sucederam tenham encontrado outro modo de serem felizes como nós fomos em volta de uma bola.

(*) Jornalista, fez os estudos primários na cidade de Santa Rosa. Vindo para Porto Alegre descobriu os encantos da capital. Estudando no Julinho começou a revelar suas qualidades de talento e de militância político-estudantil.Já em 1967, como integrante dos quadros da RBS, cobriu a Conferencia de Punta del Este, no Uruguai.Foi designado na volta para cobrir a Guerra do Vietnã, que fez..Daí seguiu para Israel, onde cobriu a Guerra dos Seis Dias. Em 1973 recebeu o Premio Esso de Jornalismo com a reportagem sobre o Tratado de Itaipu (clique aqui), pela Folha da Manhã de Porto Alegre.

- A foto que ilustra a matéria é do atleta do EC Aliança, Fredolino Schultz, o Pinicilina, com o troféu de campeão estadual.

2 comentários:

  1. tenho o maior orgulho de ser neta dessa pessoa maravilhosa pinicilina...pena que nos deixou tao cedo.........grasiela

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  2. O Sabiá era meu avô. O legendário. Orgulho. Faleceu qdo eu tinha 12 anos de idade. Saudades vô!

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